
Jorge Sesarino
Quais são os modos de sofrimentos da atualidade?
O declínio da figura do pai e da conseqüente debilitação da lei simbólica, a degradação dos valores e a desvalorização da palavra estão na origem dos modos como o sofrimento humano se apresenta na atualidade. A crescente banalização da palavra desumaniza, o sujeito cala e o objeto, quando não o divide, faz Um com ele, não em Nome do Pai, mas em nome de um gozo totalizador. Somos todos órfãos e temos de escolher entre a ideologia edipiana do Nome do Pai ou a ideologia do gozo desenfreado.
O discurso atual orienta o desejo pela via da unificação dos modos de gozar, através dos modelos de objetos, os gadgets que a tecnologia oferece para consumo.
Esse enlaçamento sujeito-objeto resulta em nova modalidade de gozo e sofrimentos chamados de “novos sintomas”. São as patologias das adições. Tal homogeneização de gozos causa o sentimento de exclusão em quem não tem acesso ao mercado de consumo desses objetos falicizados. A conseqüência óbvia é o enfraquecimento e ruptura do laço social.
Vivemos em tempos de grandes mudanças onde segregamos toda e qualquer diferença: o pobre, o triste, o feio, o diferente. Queremos o capitalismo como modelo econômico e a democracia como modelo político universal, e para isso admitimos guerras cada vez mais covardes, absurdas e cruéis.
Estimula-se a competitividade como a grande valia e aqueles que não podem ou não querem competir ficam sem espaço e sem visibilidade social. Sem o sentimento de pertencimento, ficam ameaçados física e psiquicamente na sobrevivência. Abandonados e excluídos resta-lhes, ainda, a possibilidade de inventar outra história de si mesmos, bem ou mal sucedida, afinal, não vivemos numa sociedade de castas, há mobilidade social, um pobre miserável pode tornar-se um rico milionário, tanto no submundo do tráfico quanto no mundo da arte, como artista, jogador de futebol, etc..
A padronização dos sintomas ofertada na esteira dos CIDs e DSMs e as tentativas das neurociências para explicar o psiquismo em bases orgânicas, parecem mais servir ao poder dominante da indústria farmacêutica e seus lucros obscenos, através da medicalização de toda forma de sofrimento, incluindo, a cada dia mais, a medicalização da infância, os sofrimentos das crianças.
Diagnosticadas ou enquadras, as crianças antes chamada de peraltas, atualmente são reconhecidas como hiperativas, as inibidas, de depressivas, etc. e por isso medicada. Seus comportamentos considerados inadequados para os padrões atuais esperados (ideais?) passam a receber palavras, signos como Transtorno de Déficit de Atenção, Hiperatividade, TDA/H[1] e tantos outros novos nomes, que representam um doente para um medicamento ou mais um consumidor para mais um produto de mercado. É preciso ainda lembrar que a criança é afetada pelos pais e, portanto, que a criança é o sintoma dos pais?
A medicalização excessiva e irresponsável altera a implicação subjetiva e desresponsabiliza o sujeito, que passa a ser representado por outros significantes: depressivo, bipolar, anoréxico, agorafóbico, panicoso, hiperativo, etc.. Também altera sua subjetividade uma vez que o sujeito é identificado a nomes holofraseantes, alienantes ou anestesiantes da sua condição. A patologização desses sintomas rechaça tanto o sintoma psíquico quanto o sujeito do inconsciente.
As insistentes ofertas de consumo veiculam promessas de felicidade inatingíveis. Para alcançar a felicidade ou diminuir o mal-estar, apela-se a alternativas falsas e ilusórias do consumo abusivo e indiscriminado das substâncias psicotrópicas. Afinal, para que sofrer se há remédio para tudo: para dormir, para acordar, para transar, para emagrecer, para engordar, para crescer, para defecar, para urinar, para viver e até para morrer.
Mas então porque, ainda assim os sofrimentos persistem? Os transtornos alimentares, a pandemia de obesidade que estamos vivendo, estão diretamente ligados a vontade de gozo. Responde-se como que com passagem ao ato ao imperativo da demanda desse Outro totalizante, que nomeia cada um de consumidor, cliente, cidadão, trabalhador, eleitor, dependente, e tantos outros nomes. A lógica do mercado é que para satisfazer um desejo pode-se fazê-lo a qualquer preço. É a ética das finalidades?
A experiência do amor é uma experiência comum dos seres humanos que todos compartilhamos de uma forma ou de outra, a começar pela boca – nossa primeira forma de relação com o mundo. As patologias da alimentação, os ditos transtornos alimentares como a anorexia (amor-exias? [2]), a bulimia, a obesidade, mas também as toxicomanias, o alcoolismo, podem ser pensadas como transtornos do amor, diretamente relacionados com um luto que não pôde ser feito na origem.
O amor não causa patologias, mas quando ele não se faz metáfora através do luto primário é rechaçado de alguma forma e então surgem patologias. Podemos dizer que há transtornos do amor quando a função do amor na estrutura não possibilita o amor de transferência. Não é isso o que se denomina fenômeno psicossomático? As neuroses são modos de sofrimentos relativos ao amor, são impasses transferenciais, são interdições no campo do amor.
O corpo é o suporte dos afetos e o lugar do sofrimento. Perguntas sobre o sofrimento aparecem no pensamento de quem busca um tratamento psicanalítico, e o seu alívio é o motivo principal que leva alguém a pedir uma análise. O amor do pai ou amor ao pai, base do ideal do Eu, possibilita o ideal do bem e a felicidade como possibilidade de encontro com o bem. A psicanálise busca restituir a figura do pai para recompor a relação do sujeito com a lei, e escuta o sintoma como o refúgio de onde o sujeito expressa o seu mal para poder agarrar o seu bem.
Por se agradar mais do seu sintoma do que de si mesmo não pode amar e se deixa sofrer e adoecer. Entre a miséria neurótica e a infidelidade comum, hesita e não escolhe, ou escolhe não escolher e aposta no acaso e na sorte.
Conceber o amor como uma forma de suplência à completude do ser aproxima Lacan de Heidegger, para quem o ser só existe na linguagem. O fundamento do amor, mas também do erotismo está na relação especular, não reduzido à dimensão imaginária como aparece nas neuroses que são sofrimentos, transtornos relativos ao amor. O amor é um dom constituído no plano simbólico e sustentado na cadeia significante.
No Seminário XX, Lacan afirma que a psicanálise só opera pela via do amor e que é o amor que faz surgir o desejo. A fórmula da transferência, SsS (sujeito suposto saber), não se distingue do amor: “àquele a quem suponho o saber, eu o amo”.
Freud (1929) recomenda que se escolha a infelicidade comum e a felicidade possível pela via transferência, um dos nomes do amor que possibilita amar e trabalhar. A transferência é a condição para a invenção de um novo amor a partir do patológico do sintoma como invenção subjetiva diante da falta inevitável do Outro. O amor faz sofrer, mas é também o único recurso com o qual se pode fundar um lugar no mundo. Não há cura sem o amor.
Em Inibição, Sintoma e Angustia (1926) o sintoma aparece como uma modalidade de satisfação pulsional. A função dos sintomas é retirar o eu das situações de perigo. O sintoma ‘amigo’ possibilita o laço social para que o sujeito possa emergir na existência e ser reconhecido. Geralmente é quando o sujeito procura um analista. E o que temos para oferecer? Convidamos a falar dos transtornos do amor, a por em jogo a palavra. Pela via da demanda e sustentado no desejo o amor pede amor. Aí toda forma de sofrimento, as doenças do corpo, os transtornos do amor, têm uma chance.
[1] Convém aqui fazer referência a uma conferência do Dr. Alfredo Jerusalinsky proferida em junho de 2003, na Fundación para el Estúdio de los Problemas de
[2] Termo usado pela psicanalista argentina Mirta Goldstein. Acessível no site: http://www.elsigma.com/site/detalle.asp?IdContenido=3736






